Acabei de ler uma carta aberta ao Steve Ballmer, escrita pela Mandriva.
Nesta carta aberta, além de algumas provocações sutis, podemos observar algo muito estranho. Segundo a mesma, a Mandriva conseguiu fornecer, para o governo da Nigéria, 17.000 CMPC (Class Mate) com uma versão adaptada do Mandriva.
Até ai, tudo bem, o governo nigeriano queria computadores com preços competitivos e que atendessem as suas necessidades, a junção do CMPC com uma distribuição Linux era algo mais que lógico.
Porém, a Mandriva foi comunicada que o pedido seria pago, porém todas as cópias seriam substituídas por uma versão “otimizada” do Windows.
Você faz uma licitação para conseguir um sistema que seja funcional e barato, escolhe o vencedor da licitação, faz o pedido, no final paga pelo pedido e ainda paga pela licença de outro sistema.
Alguém consegue ver algum sentido nisto?
Na verdade, faz todo sentido, se a outra empresa (no caso a Microsoft) oferecesse alguma compensação que deixasse toda essa confusão mais rentável ou pelo menos menos custosa que a operação original.
A única coisa que me vem a cabeça é um subsídio oferecido pela Microsoft para que o governo nigeriano fizesse a troca, não posso dizer que isso aconteceu ou não, mas podemos suspeitar, pois mesmo que as licenças do Windows fossem oferecidas gratuitamente, só o trabalho para troca do sistema operacional em 17.000 máquinas já justificaria que o novo acordo não fosse feito.
Mas porque a Microsoft faria algo assim?
Independente do lado ético deste movimento, tenho que reconhecer que foi uma jogada de mestre, independente se houve ou não subsídio.
17.000 cópias de Windows não são nada para a Microsoft, mas imagine toda a base da educação (inclusão digital) de um país sendo baseado no Linux acabaria com uma das maiores forças da Microsoft, o hábito.
A maioria das pessoas simplesmente se habituou a usar o Windows e boa parte nem sabe que existem outros sistemas operacionais. Se essa consciência mudar, a Microsoft ficará com sua posição ameaçada e terá que trabalhar muito mais e gastar muito mais dinheiro para manter a liderança que possui.
O grosso da receita da MS vem de licenciamento corporativo e não para indivíduos, então, imagine quando esta massa de estudantes chegar ao mercado, dominando o Linux e achando o Windows estranho.
As empresas passarão a instalar o Linux, pois é barato (ou de graça) e não apresentará nenhuma curva de aprendizado. Apesar do Linux possuir um custo menor que o Windows, as empresas temem que o custo da curva de aprendizado seja muito grande.
O uso do Linux em larga escala na educação pode trazer este tipo de impacto para o mercado de sistemas operacionais, é por isso que a MS briga tanto para estar presente no OLPC e similares.
O problema não ter o Linux no OLPC é educar as pessoas para o uso do Linux, esse, sim, é o maior temor da Microsoft. E é por isso que ela briga tanto e gasta tanto dinheiro querendo estar presente nesses computadores.
É uma estratégia muito similar ao usado por países subdesenvolvidos (como o Brasil) para perpetuar o poder. Mantenha o povo ignorante, ele não vai pensar e podemos fazer o que quiser.
Usando as palavras do François Bancilhon:
Of course, I will keep fighting this one and the next one, and the next one. You have the money, the power, and maybe we have a different sense of ethics you and I, but I believe that hard work, good technology and ethics can win too.
ou
claro que continuarei lutando essa e a próxima e a próxima. Você tem o dinheiro, o poder e, talvez, tenhamos um senso de ética diferente, você e eu, mas eu acredito que trabalho árduo, tecnologia boa e ética podem ganhar, também.
[...] auxiliar na formação de sua opinião indico a leitura das opiniões de Bruno Alves, do pessoal do Fórum GdH e do Br-Linux. Não deixe de ver minha opinião sobre o Dr. Careca [...]
Parabéns Bruno. Sua análise está perfeita.É preciso entender o que mais se faz de negativo aos povos africanos, considerando que sistemas operacionais estão no topo de uma pirâmide de necesidades.
No caso do Brasil, há um tendência séria do governo federal pela implementação do software livre por uma motivo simples. Economia. O que é louvável. esta caminhada aqui, no entanto, ainda é longa por que depende de uma evolução pedagógica, e o pedagogos não sabem do que estamos falando.